terça-feira, novembro 28, 2006

Vertigem


Trepo o ar.
O vento beija-me a cara… acaricia-me,
O sol aprecia…
Pessoas incrédulas oferecem o olhar
À procura das respostas incompreendidas…

Folhas de Outono deixam-se cair,
Passam ao meu lado incógnitas…
Finalmente os degraus em caracol param!
Sustenho a respiração… hesito…
Procuro o horizonte, procuro respostas…
Abraço-me às grades que protegem os transeuntes,
Interrogo-me…
Suspiro… respiro fundo…

Por que olhar para o que não quero
Causa-me turbilhões mentais,
Tudo gira sem rumo,
Roleta russa!
Uma bala perdida…
Não quero pensar…
Não quero sentir…
Não quero olhar…

O vento agora sopra… mais intenso,
Agonia… incerteza…

As pernas tremem,
Recuso a mexer-me
Mas também não posso ficar parado,
Dou um sinal de coragem,
Um passo em frente,
Tudo se move, tudo gira…
Tudo se perde…

Uma pétala caída,
De uma rosa negra, lágrima minha.

Mecanicamente deixo-me embalar,
Sons metálicos ecoam,
Mil pensamentos varrem o meu ser,
Enquanto me perco a olhar o vazio,
Penso…
Lembro-me…
Olho para o chão… Choro…

Passado um minuto chego à terra!
Suspiro uma vez mais,
Pareceu uma eternidade,
Quero-me levantar, não consigo…
Uma porta abre-se – rua.
Lembro-me uma vez mais – saudade.

Faço o percurso da calçada até ao rio,
Abraço-o…
Embalo a única certeza que tinha,
Numa garrafa de vinho… vazia!

Içada a vela,
Levantada a âncora,
Parte… sem destino!

Fico a olhar…
Saudade,
O fado das gaivotas…
A garrafa perde-se no horizonte
Mas finjo ainda vê-la,
Deixo-me estar…
É noite… O sol amanhece…
Está alto… adormece…
Deixo-me estar.

Amanhece uma vez mais… ainda a vejo!

Bruno Ribeiro
Lx. 29.Out.06

quinta-feira, novembro 23, 2006

numa esplanada junto ao rio

Numa esplanada junto ao rio,
Noite…
O cheiro a café
da chávena que me faz companhia.

Mesa, cadeiras vazias,
Um deserto árido,
Uma árvore seca,
Corpo ausente… o teu!

Olhares que se perdem
No vazio inconsciente das noites
Em que a tua ausência
Se torna como um peixe fora d’água.

Um arrepio na espinha – frio?
Calor do gelo que me invade
Desde que a partida foi solução…
Procuro na estrada o teu rasto… em vão!

Numa esplanada junto ao tio,
Desenho a saudade,
Escrevo sons das lágrimas derramadas
Em tons de violino!

Pestanejo a luz dos candeeiros
De chama tremulente
Como as ondas do mar…
Pergunto porque partiste…

Rabisco no ar versos que me levem até ti,
Linho azul que sempre corre,
Cascata de mártires,
Crus dos condenados…

Numa esplanada junto ao rio
Parto para nenhures,
O caminho para o nada,
Perdido no tempo…

Bruno Ribeiro
Lx. 29.Out.06

segunda-feira, novembro 20, 2006

il caffè di roma

imagino como estará o mar...
num ir e vir de pensamentos,
distante, presente, emotivo.

imagino como estará o céu...
no ir e vir das nuvens
que acompanham as ondas,
ausentes, incógnitas...

imagino como estarão as estrelas e os barcos...
os grãos de areia e as pegadas na praia...

imagino tudo de olhos abertos
sonho com tudo de olhos fechados
grito, não faz eco...
não sai som...

pergunto-me se algum dia
o mar levará as lágrimas que chorei...
se voltarei a sentir o calor no rosto,
alegria na alma, descanso no coração....
será que a música me responde?



Bruno Ribeiro
Lx. algures no tempo

sábado, novembro 18, 2006

agonia

Saber o que sinto e ter de esconder, trancado a sete chaves prestes a explodir, mas não posso revelar. Mostrar-me forte quando por dentro é um aperto… parece uma corda à volta da garganta, um colete-de-forças a sufocar o corpo, tão grande que é este sentimento!
Já passou por tempestades, cataclismos, ventos fortes, chuvas tropicais mas foi e é sempre constante e infinito como o céu, tão presente… tão activo… e quando me desorientava descobria sempre o caminho de regresso como as estrelas que à noite orientam os marinheiros!

Junto dos outros tento sorrir, quando por dentro tudo desaba… e quando me vejo apenas na companhia da solidão e da minha sombra, dos olhos jorram lágrimas que parecem pedaços de vidro a brotar dos meus olhos, rasgando a carne enquanto deslizam pelo meu rosto.

Tento parecer que estou bem, quando na verdade não estou e tento não pensar no que o coração sente para não me magoar mais ainda.
Como o mar pode dar vida e tirar… como pode abrir o livro da felicidade para depois o fechar…

Tento refugiar-me assim na escrita de versos, mas a onda da poesia não vem, pois as palavras são efémeras para o que tento guardar dentro de mim, bem escondido como um tesouro de piratas, só espero que os meus olhos não me traiam.

Bruno Ribeiro
Lx. 25.Out.06

sexta-feira, novembro 17, 2006

Chiado Confidente


Procurei os versos das ruas e a poesia do bairro nas palavras deixadas e escondidas nas suas texturas, procurei um dos capítulos de Lisboa, escutei os seus sons, inalei os cheiros, olhei para o seu rosto, tacteei o Chiado…

Procurava respostas de perguntas incompreendidas, senti o sol a atravessar o meu corpo, falei com as sombras, vivi-o… enquanto passeava pelas calçadas gastas de vultos desconhecidos, anónimos que ali vagueavam e assim me tornei noutro deambulante que dançava nas suas vestes de texturas diferentes, enquanto deixava mensagens silenciosas, perdidas num lugar de poetas… lágrimas que desciam pelos carris dos eléctricos e jaziam no rio.

Deixei que as horas passassem por mim enquanto trocava segredos com esta zona nostálgica, procurava poesia que noutras épocas juntavam as pessoas em tertúlias nos cafés que me mostrassem o caminho que fizesse escrever as lágrimas que dos meus olhos teimam em não cair…

O sorriso das pessoas, alegria… aquele tão belo sentimento que perdi, que me abandonou… Por vezes esquecia-me do passado e noutros era incapaz de não me lembrar do teu rosto – simplesmente aparecias, naqueles momentos magníficos que o Chiado oferece a qualquer instante imprevisível e que gostaria de ter partilhado e que agora vivo passeando de mão dada com a solidão.

Bruno Ribeiro
Lx. 28.Out.06

quarta-feira, novembro 15, 2006

rabiscos


Rascunho perto do rio Tagus
Palavras inocentes de sentimentos.

Entre amigos,
Disparates e sorrisos
Levam-me a entrar num delírio
De alegrias momentâneas…

Não te esqueci… não consigo!

Penetro por ruelas estreitas
Belas desconhecidas…
Umas degradantes,
Outras que nos levam para outros tempos…

Perdido,
Não nas ruas…
Mas sim nos pensamentos
De distâncias intransponíveis…

Em cada esquina – uma cusquice,
Em cada largo – uma festa,
Em cada esplanada – um lugar vazio!

Corro para apanhar o eléctrico
Quando queria era correr para ti,
Mas a tua mão afasta-me
Em vez de me abraçar…

Rabisco uma lágrima no ar, caída…

Uma pétala,
Folha de Outono,
Também ela a morrer…
Suspiro por fim, o último!
Olho para todo o lado,
Procurando qualquer sinal teu
Apesar de saber que nada acontece…

Percorre…
Em pensamentos meus
O passado nosso!

Perco as forças
Que já não tenho – vou ao chão.
Estendo o meu corpo
Num movimento rápido…
Jazo nas pedras da calçada a chorar…

Bruno Ribeiro
Lx. 1.Nov.06

segunda-feira, novembro 06, 2006

uma viagem qualquer


Ouvindo uma música tremulente
Numa viagem qualquer…
Encosto o rosto ao vidro
Olhando para o vazio do céu…
De textura de algodão cinza…
Também ele chora!
Mas desconheço as suas razões…

Deixo-me estar!

Árvores de variadas cores marcam o percurso
De tonalidade castanho-avermelhada
Outras reflectem o esverdeado dos meus olhos…
Pousadas no tempo
Agarradas à vida!

Rios correm sem parar…
Aguarelas das minhas lágrimas.

Mais uma viagem qualquer
Sem ti como companhia
Sem tu como destino.

Bruno Ribeiro
Lx-Lr. 6.Nov.06

domingo, novembro 05, 2006

breve passeio – cabisbaixo


De capuz posto, escondo o rosto.
O olhar perdido na calçada
A contar as pedras que a sombra acaricia…

Chove,
Ergo o olhar para o céu
Com a esperança que a chuva
Dilua o sal do meu rosto….

Fujo da luz dos candeeiros,
Permanecendo na penumbra,
Roteiro da escuridão!

No meio desta chuva,
Ouvem-se os pingos das minhas lágrimas secas,
Pequeno dilúvio…

No céu rasgado
Por esquiços de tempestade,
Ecoa o despedaçar do meu coração!

Perdido,
Vagueio por cidades desconhecidas
Permanecendo despercebido
No meio de um nevoeiro cerrado.

Bruno Ribeiro
PMS, 5.Nov.06

domingo, outubro 29, 2006

insónias


cama vazia
.
deito-me… sinto a falta de tudo,
respirar…
.
procuro-te entre os lençóis,
perto da lareira apagada…
.
noite fria…
.
sem ti, noite longa e deserta…
rebolo perdido…
.
não consigo fechar os olhos,
não os consigo manter abertos…
.
lágrimas no leito
.
fado negro,
sonhos negros…
.
embalo ausente,
solidão
.
corvo que uiva distante.

Bruno Ribeiro
Lx. 29.Out.06

sábado, outubro 28, 2006

sobrevivência


Aprisionado em sentimentos contraditórios,
Nado num mundo de seda e aço,
Atraiçoado por mim mesmo
E pelo que sinto,
Incapaz de sorrir…
Incapaz de não chorar…
Palavras para quê?

Revoltado pela luta inglória,
Voo sem destino e sem poiso,
Embriagado pela dor que me consome
E corrói… e arde…
Pelo que sinto,
Pelo que vivi e agora sobrevivo…
Palavras para quê?

Enroscado entre pedras húmidas
De uma esquina escura,
Solto a violência da angústia
De me encontrar perdido
Em locais de areias movediças,
Pelos desejos assassinados,
Pelos sonhos corrompidos,
Palavras para quê?
Se delas não há resposta.

Ancorado em mares revoltos
Que contra mim projectaram incertezas
Voos rasantes de suspiros intensos
Sombras afugentadas pelo som das lágrimas,
Uma lua desatinada pelo meu uivo
Choro que emancipa as estrelas,
Dança de uma agonia imensa
Entre os lençóis de algodão negro
Incapazes me tirarem a dor
E de me esconder do frio…

Ai, solidão, solidão…
Que me respondes mil incertezas,
Que será dos versos apaixonados
Que ficaram por revelar?

Ai, solidão que me acompanhas…
Abraça a minha sombra,
Toca-me no rosto…
Sente a poesia negra que escorre dos olhos…

Ai… solidão…
Solta-me… abandona-me…
Como a um cachorro sem destino
E parte para longe,
Procura outra sombra enegrecida…
Deixa-me chorar… e sorrir…

Evaporo por entre as lágrimas
Que se perderam no labirinto da vida,
Evaporo por entre os fios de seda,
Que compõem as velas dos barcos
Que desejava não ver partir…
Porto de abrigo carregado de rostos pálidos…
Por verem partir tantos sonhos perdidos…
Mas… palavras para quê?

Foi este o caminho que me ofereceram
Sem eu ter escolhido…

Tento deixar a âncora,
Tornar a revolta em força e coragem…
Fugir da prisão invisível que me prende
E no meio desta encruzilhada,
Seguir em frente…

Mas grande é a saudade
De um coração apaixonado…
Sei que tenho de embalar este amor
E deixar algures…
Talvez na memória!

Bruno Ribeiro
Lx. 28.Out.06

quarta-feira, outubro 25, 2006

torneira de lágrimas


ping, ping, ping

gotas de água que caem de uma torneira qualquer

ping, ping, ping

torneira avariada de um qualquer jardim,
desperdício de água nos tempos que correm…
ou inevitável para aliviar qualquer pressão.

ping, ping, ping

procuro apagar a fonte deste constante som,
que me faz ter os pés molhados
numa poça de água qualquer que ali existe…

ping, ping, ping

e num qualquer espelho me vejo,
embaciado por palavras soltas
que no silêncio permanecem.
vejo de onde vêm essas gotas de água salgada,
lágrimas de uma qualquer sombra,
sombria e franzina – desespero!

a seu lado diluem-se cinzas,
pegadas de tempos idos e alegres,
tempos em que tudo fazia sentido…

dessas poças dois rios que se separam
para dois infinitos mares distantes.
será que em qualquer lugar se podem encontrar?
e deste “ping, ping, ping” soltou-se uma cascata…
pedras soltas de uma solidão intensa,
que caem a meus pés,
vindas sei lá donde…

pedras, lama, carvão e sangue…
esboçam os meus passos, destes dias,
em que transpiro tristeza, derramo lágrimas da cor de petróleo,
mancha negra que se espalha nos oceanos.

labirinto,

escondo em baixo de cada pedra da calçada uma lágrima,
miligramas de dor que tento esconder pela cidade…
escondo em cada rosa outra lágrimas,
miligramas de angústia que tento apagar…
guardo em cada estrela um desabafo,
miligramas de esperanças perdidas…
guardo em cada grão de areia outro desabafo,
miligramas dos sonhos esvanecidos…

ping, ping, ping…

lágrimas que dos meus olhos caem…

Bruno Ribeiro
Lx. 25.Out.06

terça-feira, outubro 24, 2006

desabafos efémeros


Sinto a falta da paz dos teus lábios, aquele doce momento que me elevava até ao mundo dos sonhos, do delírio constante…
Sinto a falta do brilho dos teus olhos, sorriso que abria o coração que me derretia mesmo nas noites frias… E tudo se evaporou por entre os dedos que procuram a tua mão.
Nos dias de hoje, nem o sol brilha, rasgado pelas constantes guerras de meteoritos que teimam em me acertar… tento desviar-me, mas não consigo evitá-los a todos. Já me questionei porque haveria de tentar fazê-lo, se não consegui evitar que partisses…
Assim, corro em direcção ao mar… uma falésia aparece à frente e desta não evito… enfrento-a, é o portal de uma liberdade desconhecida. O mar no horizonte, dos rios que dos meus olhos partem até se acalmar, sem parar de correr…
Sinto a saudade a apertar, a vontade de estar contigo, de te beijar, passear de mão dada, andar de baloiço – brincar, falar, sorrir, voltar a sentir a paz que me transmitias mas, isso só encontro nos sonhos… de noites em que não durmo, por o meu corpo ansiar o teu e o sorriso… e o beijo… de dias em que mal acordo, de infinitos momentos de angústia, desespero e medo…
Mas tudo se perdeu e sinto-me a perder num mundo que tenho de redescobrir, nestes dias em que os raios solares são sombrios e negros e a chuva de nanquim, igual à dos meus olhos.

Bruno Ribeiro
Lx. 24.Out.06

segunda-feira, outubro 16, 2006

.afogamento.


Sinto-me a afundar... amarrado a uma pedra e atirado ao mar...
O sufoco... o desespero... o medo... o pânico... a falta de ar... a curta-metragem da vida passada à frente dos olhos. As lágrimas a misturarem-se com a água salgada do mar que já me começa a inundar os pulmões.
Olho para cima e vejo o sol a diluir-se, a perder a cor e o brilho, a apagar-se... salpicos do calor que emana e a meus pés... o negro!

Por dentro, consumido por larvas famintas que se alimentam do meu ser, do que resta... ervas daninhas a sufocar-me, a apertar ainda mais os pulmões e a cravar espinhos no coração despedaçado... triturado... esmagado... dor agonizante...

Estendo a mão à procura do sol... e desisto...

Bruno Ribeiro
Lx. 16.Out.06

domingo, outubro 15, 2006

uma lágrima em forma de letra


Houve momentos em que as estrelas brilharam bem lá no fundo do mar e os barcos acendiam candeias que iluminavam a noite, momentos esses que até o arco-íris se intimidava devido à cor, à alegria que nos foi invadindo de alto a baixo.
Houve momentos em que o nevoeiro ou a chuva esconderam essas luzes, essa magia, só por nós presenciada... e agora existe um nevoeiro cerrado, uma chuva intensa que abraçou o nosso mundo e só nosso! Tenho medo que esse nevoeiro perdure e não deixe ver lá em cima os barcos, lá em baixo as estrelas... tenho medo de perder a magia do teu sorriso (sim, tu sabes fazer magia, tu és mágica)... medo de perder a magia do teu olhar...
Quando poderei ver novamente as estrelas a nadar na água? E quando voar na noite através dos barcos?
O que fazer para esse nevoeiro se evaporar? E algum dia irá evaporar?
Tenho medo das perguntas e ainda mais medo das respostas...

Um dia em que te magoei… e naveguei sob um nevoeiro cerrado
Bruno Ribeiro

sexta-feira, outubro 06, 2006

podem vir

podem vir...
seres necrófagos alados... podem vir!
podem vir... sanguessugas sequiosas, podem vir!

encontro-me atado a um cato em forma de cruz,
com cordas espinhosas...
todo o tipo de esfomeados seres a meus pés
desdenhosos... famintos... podem vir!
secar a minha alma...
fragmentar, despedaçar o meu corpo...
eliminar o meu espírito...
rebentar com o meu coração... podem vir!
beber das minhas negras lágrimas,
trepar pelo meu corpo enlameado,
rasgar a minha pele,
arrancar a minha carne,
podem vir!

serpentes a abraçarem-me o pescoço...
outras a beijarem-me com veneno,
outras a cuspirem-me desespero...
outras ainda a fazerem o que quiserem...
podem vir!
pois já nada alimenta o meu viver!

por favor, venham...

Bruno Ribeiro
Lx. 6.Out.06

estranhos sons

sons estranhos,
estes que indagam o meu ser...

sons do silêncio doloroso,
das lágrimas que teimam em cair.
sons do bater de asas distantes,
de âncoras a levantar,
velas a içar e barcos a partir...

sons estranhos,
de estrelas a apagarem-se,
flores a morrerem...
ilusões... desejos perdidos...
sentimentos espinhosos!

que sons estranhos...
brotam da minha guitarra sem cordas,
da pena de corvo a escrever com nanquim
num negro papiro envelhecido...

sons estranhos,
estes que indagam o meu ser...

sons de palavras que não podem ser ditas,
o silêncio das que já foram ouvidas!
a morte silenciosa da solidão...
que som estranho!

Bruno Ribeiro
Lx. 6.Out.06

cry

"i hate myself and i want to die" - nirvana
cry

quero apagar tudo em que acredito!
apagar o meu ser, esquecer que vivo...
quero partir para longe,
onde não possa magoar ninguém,
ir... sem destino,
com a minha velha guitarra sem cordas,
a caneta sem tinta...
embrenhar-me nos meandros do álcool da solidão,
atirar-me para um mundo desconhecido,
abusar na heroína, esconder-me na cocaína!
morrer como ser humano...
viver como nunca desejei!
inalar o ópio da dor,
espetar canábis no espírito...
algures num lugar esquecido pela humanidade
para não magoar mais ninguém,
deixar de existir para o mundo,
viver nas cinzas do esquecimento,
rebentar tudo o que sou
para esquecer o que fui...
porque odeio-me!

Bruno Ribeiro
Lx. 6.Out.06

não posso crer

não posso crer,
que as sementes da paixão vagueiem pelo ar
sem terem onde pousar,
à deriva no tempo, sem perdão... não posso crer!

não posso crer,
que as estrelas morram em vão
em puro desespero se escondam
no esquecimento de quem desiste... não posso crer!

não posso crer,
que os barcos vagueiem no céu... no mar...
se afundem num amor perdido,
numa neblina, véu de seda... não posso crer!

imagino sim, no que acredito...
no que o coração me diz e o mar segreda,
que rabiscos na areia as ondas não levam...
mas acariciam... em segredo...
com a minha simples companhia...
com os meus desejos e os meus medos...
a brisa a bater-me na cara,
brisa leve, suspiro de gente
afogada na esperança de viver,
com mil sorrisos ao amanhecer
mil beijos ao anoitecer...
o afagar o cabelo... olhar eterno... intenso....
a espuma das ondas... carinho...

não posso crer que tudo se perca na neblina das horas...
não posso crer!

que as estrelas deixem de luzir
no fundo dos mares - confidentes...
que os barcos partam sem deixar rasto,
uma breve linha no céu,
de esperança, de mágoa... não posso crer!

não posso crer,
que o tempo vivido se reduza a pó...
a cinzas... a vazio...
e que o tempo ao meu lado não seja lembrado...
e que ao meu lado o tempo não seja vivido...
não posso crer!




sinto sim no coração esperança,
esperança de ser feliz...
por isso estendo a mão aos céus
a pedir perdão, a pedir ajuda...
enquanto o resto do corpo é desfragmentado,
despedaçado... alimento de necrófagos,
vorazes predadores de corpos infelizes...
devoradores de almas condenadas...
estendo a mão...

... estendo a mão,
à procura de uma asa que me puxe,
que me leve para longe,
longe destas areias movediças,
longe desta solidão...
longe da tristeza...para longe...
perto de ti!

não posso crer...
não posso crer que não se estenda essa mão,
que não queiras viver o tempo a meu lado,
que te escondas algures nos afazeres,
não aceites a flor que te ofereço... um jardim,
que deixes de acreditar na magia,
que prefiras 'tar longe de mim,
que não me queiras mostrar se me amas,
que não me queiras amar!

não posso crer...
que não me queiras afagar...
que não me queiras acarinhar...
não posso crer...
que não me queiras olhar...
que não me queiras tocar...
não posso crer...
que não me queiras beijar...
que não me queiras amar...
não posso crer, desculpa mas não posso crer...

Bruno Ribeiro
Pms, Out.06

who am i?

Agora que estás distante, refugio-me entre as folhas de papel como se fossem lençóis na cama e a tinta negra rasura sobre o opaco e o desfolhar amarelado das folhas.
Estás tão longe... mas continuas tão próxima, não sei como, por certo, só por artes mágicas.

O som que ecoa no quarto transpira meditação sobre uma curiosa pergunta à qual não sei resposta, assim... e enquanto estás longe, distraio-me na cinza das horas, a percorrer as veias do meu corpo para o libertar das mágoas e lágrimas que teimam em não sair. Gostava que se derramassem pelo rosto e se enxugassem por fim, mil pesos que sairiam do corpo e enfim, leve e mais alegre...

Afinal, quem sou eu?

Por vezes, lembro-me de antigas crónicas em que me auto intitulava de corvo de nanquim, pousado no ramo de uma árvore seca e queimada numa noite sem luar à procura de uma pomba branca, em sinal da paz que quero no espírito, da alegria da alma e da felicidade no coração, pomba branca onde estás? Tão longe de mim... voa para mim enquanto a noite desce à terra que nos acolhe!

(...) who am i? who am i for you?

Onde estás?
Onde estás nas noites em que preciso de ti? Onde estás agora? Estarás a olhar para a lua assim como eu?

Onde estás?
Onde está aquela menina que me encantava com o sorriso?
Algures por aí... mas porque não me estende a mão?

As lágrimas secas das noites anteriores escorrem-me pela cara...

Bruno Ribeiro
Pms. 6.Out. 06
Escrito enquanto ouvia:
"Mellow collie and the infinite sadness"
Smashing Pumpkins

domingo, outubro 01, 2006

deixei-me levar… e encontrei-te!

embrenho-me nos ventos do norte,
sou pétala, sou folha de Outono,
deixo-me ir para onde o vento me levar...
já não há vida no meu coração
e alma transformou-se em pedra.
levantei a taça de vencido
e fiz jus ao vencedor...

nos meus olhos,
nascem vagas de negras lágrimas,
e a sombra da lua e do sol
espelha-se sobre mim.
sei que aqui e ali não sou feliz,
por isso parto para a aventura...
entrego-me ao mundo,
como o cordeiro se entrega ao lobo,
levo a guitarra sem cordas nas costas,
papel rasurado e uma caneta virgem,
levo o meu corpo
embebido em sangue,
suor e lágrimas,
cavo sementes de poesia
e desatino a dor que me acompanha.

ergo a fronteira da vida e da morte,
sou condenado no tribunal do sofrimento,
onde o diabo é o meu advogado,
onde os seus discípulos riem pela pena em mim imposta,
penitenciado, acusado e torturado,
ficam com o que resta de belo,
com actos impunes, eles vencem...
uma vez mais.

continuo a viagem a que me submeti,
caminho descalço pelo tapete em brasas,
pelo passeio de espinhos...
mas, não é esta a dor que me tortura...
peço para serem clementese porem um ponto final...
mas algo surge no horizonte,
uma borboleta,
uma flor,
um anjo,
que me diz, sem eu merecer,
para acreditar em mim...

fico estatelado e tento perceber
porque me diz,
o que me diz e quem é...

interrogo-me se será mais um truque
do meu querido advogado,
mas não... não sei... parece ser amiga...

dispo a minha nudez,
aperto a minha guitarra,
pronta a tocar (sem cordas)
levanto a caneta,
estendo o papel
e tento fazer algo...
uma canção...

assim me iludo... me perco...
nas pétalas do condenado,
nas amarras do inocente
e sigo sem saber por onde andar...

serás tu meu anjo que me irás encaminhar?
irás limpar as lágrimas que me escorrem pelo rosto?
irás sorrir para eu sorrir?
irás cantar para me encantar?
agora sei que sim…

deste-me o que ninguém me deu até hoje!
deste-me paz, alegria, sorriste…
deste-me vontade de viver, sorriste…
voaste até mim e… sorriste…
e devido a esse sorriso,
deixaram de nascer vagas de lágrimas,
e parei na minha viagem…

agora a minha guitarra tem cordas,
o passeio não tem espinhas, nem brasas…
apenas porque me sorriste e me deste vida!


Bruno Ribeiro
Coimbra Lisboa Leiria Porto de Mós